Mais uma! – Um mundo de diferenças. (22 de fevereiro)
Há alguns dias encontrei uma outra negra aqui... Ela é francesa e mora no mesmo prédio que eu.
Essa é a primeira vez dela na Estônia e chegou em setembro do ano passado. A experiência dela até agora tem sido muito similar às minhas experiências anteriores... digamos, irritante.
É, a primeira impressão é a que fica.
Eu conheci outras pessoas, nas duas outras vezes em que estive aqui e alguns disseram que ele provavelmente nunca mais voltariam – e eles não faziam parte de nenhum grupo minoritário.
Para a minha sorte, eu tenho a chance de ver como este país está mudando rápido. Ela não consegue ver isso, os outros que conheci não verão isso... e eles não voltaram para conferir. A primeira impressão não foi das melhores, e essa foi a que levaram consigo em suas malas.
Infelizmente – talvez não para eles, mas para a Estônia.
Eu espero que a Estônia continue no caminho em direção às mudanças que eles precisam para sobreviver nesse mundo de diferenças.
Porque, afinal de contas, qual a graça da vida se não ser diferente e aceitar as diferenças? Qual seria o propósito da sua existência se o seu vizinho fosse exatamente como você e pudesse fazer o que você faz exatamente da mesma maneira... meu Deus!
Não haveria graça nenhuma em procurar por homens e mulheres lindos... todos eles seriam iguais. Você poderia casar com qualquer cara e ter certeza de que sua mãe casou com alguém exatamente como ele, então todos precisariam usar algum tipo de identificação, dizendo quem pertence a quem. Assim você nunca teria a desprazer de pegar seu marido fazendo la-la-la com sua mãe... já imaginou?
Um mundo maneiro, né?
Então, vamos celebrar as diferenças!
Mudança... (18 de fevereiro)
Ontem de manhã cedo fomos à Tallinn pegar as caixas com nossas coisas.
Estava frio.
Bom, passamos o dia inteiro lá, a maior parte do tempo trabalhando em um café.
Foi muito legal rever pequenos objetos, canecas, livros etc.
Como eu disse, nós moramos aqui antes, por 6 meses. Agora estamos de volta para mais dois anos e meio. No mês que vem nos mudamos para um apartamento, então precisávamos dessas coisas de volta.
Ah, sobre o escândalo da brasileira na Suíça... estória triste... só fiquei curiosa sobre uma coisa: por quê ela disse aquelas coisas? – Eu não queria falar sobre isso... mas aqui vamos nós...
- Vai ver ela tinha perdido os bebês algum tempo atrás e se sentiu culpada, apesar de ter “lupus” e, portanto, a culpa não foi dela. Mas tudo bem, ela se sentiu culpadas e decidiu jogar a culpa pra cima de alguém. Mas por quê skinheads e um partido político? Imaginação fértil...
- Vai ver ela foi mesmo assaltada mas... mais uma vez, por quê acusar skinheads e um partido político? Por quê mentir e dizer que perdeu os bebês naquela ocasião?
Eu poderia continuar, mas é perda de tempo.
Só posso assumir que ela teve algum tipo de crise.
Ninguém na posição dela – filha de um homem importante no cenário brasileiro, advogada e vivendo fora do país – faria alguma coisa assim, a menos que fosse louca. Ela tinha até uma médica portuguesa que estava ilegal no país... Que tipo de advogada é ela? Advogada brasileira, tá bom, tá bom! Mas não é educado peidar e cagar na casa dos outros – e a maioria dos brasileiros sabe disso!
Agora ela está encrencada, mas mais do que isso, ela colocou todos os brasileiros vivendo fora do país em uma situação delicada. É claro que, se ela tem algum problema mental isso não deveria se refletir em todo mundo, mas meu palpite é que sim, vai sim. Infelizmente uma pessoa pode riscar a imagem de um país nesses casos. Até mesmo o presidente vestiu uma saia-justa por causa dela. Ninguém merece!
Bom, coitada dela, coitado do namorado-noivo-marido e coitado do pai – que perdeu a credibilidade por não saber o que tinha acontecido e por ter respondido de acordo com os sentimentos de pai, e não como advogado dela.
Ela fez ambos, o pai dela e o nosso presidente, de palhaços...
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Ontem (12 de fevereiro)
Ontem eu fui ao cinema com meu marido.
Assistimos a Benjamin Button. Putz! Que filme triste!
É interessante, mas a razão pela qual nos fascinamos pela idéia de nascer velho é a necessidade de saber tudo.
Queremos chegar ao mundo com todo o conhecimento, com todo tipo de experiências e viver com sabedoria.
Esse filme só mostra o cara nascendo velho e perdendo a consciência no caminho de volta ao berço. Assim, provavelmente ele só está totalmente consciente de si mesmo – corpo e mente simultaneamente – em algum ponto no meio de sua existência.
Claro que o filme contradiz a biologia quando ele “rejuvenesce”.
Mas a gente quer ser velho em relação às nossas experiências, não fisicamente. A gente quer nascer com todo o conhecimento necessário para sobreviver. Queremos ser poupados da dor de aprender com nossos erros e da dor de crescer.
Como deve ser, a gente atinge a consciência de nós mesmo relativamente cedo e normalmente não a perdemos – exceto em casos de doenças mentais relacionadas a idade.
Eu gostaria de ter o conhecimento que a minha avó tem, mas não necessariamente as rugas. Aposto como você também.
De qualquer forma, é um filme interessante e triste.
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O efeito Obama (11 de fevereiro)
Estou aqui desde primeiro de fevereiro.
Esta não é minha primeira vez na Estônia, mas a terceira;
Tenho que admitir que minhas primeiras experiências não foram das melhores. Eu sou brasileira, de descendência africana, então... A Estônia é um país da ex-União Soviética e, portanto, um tanto quanto isolada do resto do mundo e ainda não acostumada com coisas ou pessoas “diferentes” – apesar de que eles estão tentando se atualizar. Eu era como um elefante passeando pela cidade, e claro, todo mundo ficava me olhando, - ou melhor, encarando. Um senhor quis me tocar – talvez pra ter certeza de que eu não era feita de chocolate. Bom, nessas ocasiões alguns artigos foram escritos sobre mim, minha experiência e o caso das minorias na Estônia. Eu dei uma entrevista para o Postimees, o jornal de maior circulação por aqui, sobre a impressão que estrangeiros têm quando visitam a Estônia. Não fui só eu, mas eu fui a única mulher entre 7 entrevistados.
Você pode chamar isso de “choque cultural” ou o que te convier, mas eu não consigo encontrar uma palavra ou expressão forte o suficiente para representar aqueles momentos.
Foi uma experiência bastante interessante para mim também. Minha visão sobre a Europa e o mundo mudou muito. Não estou somente ligada à Estônia de alguma forma, as também à Noruega. Eu pude ver duas Europas e compará-las ao meu país – no limbo atualmente – que costumava ser considerado parte do terceiro mundo. Naquele momento eu pude ver que em alguns aspectos nós estamos em melhores condições e em outros nós estamos “em processo”.
Hoje, 11 dias pela terceira vez, eu vejo uma Estônia diferente. Não porque eu tenha mudado minha forma de olhar. Ainda tenho medo e me mantenho reservada, mas os olhares que recebo não são mais hostis, mas curiosos. E isso é muito legal. É tão mais confortável ser vista como um mistério a ser desvendado, e não uma ameaça.
Talvez isso seja o que eu tenho chamado “o efeito Obama”. Ele é a prova máxima – aos idiotizados nazistas – de que negros também são seres humanos, de que eles pensam, de que eles têm sentimentos e podem governar o “mais forte” país do mundo da mesma maneira que os brancos. Pela primeira vez a cor da pele não foi elemento decisivo, e por causa da influência dos Estados Unidos para o resto do mundo, esse processo norte-americano refletiu em todos os cantos, incluindo na Estônia. Show!
Até agora, tudo bem. Ainda não encontrei nenhum skinhead – e espero não ter o desprazer -, e estou bem por ora.
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